
Torna-se tarde demais, quando para nossa surpresa descobrimos que fomos perdendo os pequenos caprichos que configuram os nossos dias. E que o mundo dos pequenos gestos - que fazem com que a vida seja a cores - nos vão chegando, uns atrás dos outros, sem remetente. E que, por tudo isso, fomos ganhando medo, o que só sucede quando fugimos de nós ou de tudo o que sentimos. Torna-se tarde, ainda, sempre que se descobre que as pessoas da família são aquelas a quem nos podemos abraçar, mesmo que seja simplesmente para chorar. E, finalmente, torna-se tarde demais, quando para nossa surpresa, somos só medianamente felizes. E que as pessoas que deveriam dar-nos um itinerário para quase todas as duvidas nos foram decepcionando, devagar. As pessoas morrem quando nos decepcionam e, para nossa perplexidade, com elas morre sempre um bocadinho, mais ou menos indecifrável, dentro de nós. É claro que as pessoas podem parecer uma ingerência esquisita no "tarde demais" com que, por vezes, a vida vinca um horizonte nos subúrbios do nosso coração. Mesmo que a maioria das pessoas saiba que a tristeza funda só ataca aqueles para quem quase todos os gestos chegam com atraso. Ou até tarde demais... Talvez deixe de ser tarde sempre que, pela vida fora, a ideia de morte não nos rouba o horizonte mas, antes, o alarga todos os dias. E logo que reabilitamos o direito de estarmos tristes. E sempre que o medo mereça os elogios de uma "qualquer coisa" que, olhando por nós, não rouba credibilidade à esperança. E deixa de ser tarde quando se compreende que ouvir nunca rima com escutar, e que se escuta sempre que, de olhos nos olhos, vem até nós a linguagem do coração. E deixa, para sempre, de ser tarde sempre que a humildade, diante das surpreendentes janelas com que o amor nos desconcerta, nos indica que nunca é tarde...sempre que haja com quem recomeçar...! (Eduardo)





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